A Histórica Fazenda Mangaraí

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Por Adriano Lima Neves

A beleza natural de uma região é certamente uma das potencialidades que mais pesam na hora da decisão por um investimento em um equipamento turístico. Mas, além dessa beleza, a história de um lugar, de um imóvel ou da cidade em que esse equipamento turístico será implantado, também tem um peso enorme nessa decisão.

É o caso da Fazenda Mangaraí, localizada na comunidade de Barra de Mangaraí, em Santa Leopoldina, que em breve será transformada em um grande equipamento turístico, que vai englobar um condomínio de chácaras, hotel e restaurante, em um ambiente rural, com muita água, áreas verdes, conforto, diversos espaços de lazer, e ainda com o diferencial de ser bem próximo da Grande Vitória, a apenas cerca de trinta quilômetros.

Para que o leitor de O Leopoldinense entenda o porquê de um grande empreendimento turístico como esse ser instalado nessa região ele deve conhecer a importância histórica e cultural do lugar, para saber o que dá a essa fazenda toda essa potencialidade.

Então, na minha coluna desta sexta-feira, você vai conhecer um pouco mais da história da Fazenda Mangaraí, e vai se convencer de que realmente, além de beleza natural, ela tem importância histórica e cultural suficientes para se transformar em um belo empreendimento turístico, com poder de atração de outros investimentos para a região.

Primeiro quero iniciar com a explicação sobre a origem do nome Mangaraí, que pode ser entendido como uma corruptela de mangará-y, do tupi-guarani, que significa rio dos mangarás, uma planta da família das aráceas. Ou ainda Mangará, de mã-cará ou cará, um tubérculo muito produzido atualmente em Santa Leopoldina. Interessante lembrar que o padre José de Anchieta já mencionava o cará de nossa região em seus escritos, inclusive valorizando as suas propriedades alimentícias. Até o escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral, o Pero Vaz de Caminha, citou esses tubérculos na sua famosa carta sobre o descobrimento do Brasil. 

A importância desses tubérculos na alimentação dos primeiros desbravadores que fundaram essa fazenda e o fato de terem encontrado muitas dessas plantas às margens do rio, são a origem mais provável e mais aceita para que o rio e a fazenda tenham sido batizados com esse nome: Mangaraí. 

A ocupação do local onde viria a ser a Fazenda Mangaraí teve início por volta de 1800, no reinado de Dom João VI, ainda reinando em Portugal, pois a família real só viria se instalar no Brasil em 1808.

O início da povoação dessa região se deu em função da posse de Antônio Pires da Silva Pontes Leme como Presidente da Província do Espírito Santo, o que ocorreu em 29 de março de 1800. Silva Pontes era um mineiro nascido na cidade de Mariana, tendo chegado ao Espírito Santo no auge dos seus 50 anos.

Apesar de um homem culto, pois era Doutor em Matemática, formado pela Universidade de Coimbra, além de um geógrafo experimentado, Pontes Leme não foi muito simpático e nem amigável com a população nativa do Espírito Santo. É que a sua missão, além da submissão à Província da Bahia, era obedecer aos ditames de Portugal e não promover o desenvolvimento das regiões sul e norte do Espírito Santo, mantendo-o praticamente incomunicável com a província de Minas Gerais, como forma de proteger as minas de ouro que lá eram exploradas.

Por ter a preocupação em desenvolver apenas o litoral e a região central do nosso estado, pois era praticamente proibido ultrapassar os limites do Rio Doce, Pontes Leme fez concessão de grandes sesmarias, todas localizadas próximas de Vitória, capital da Província, com o intuito de povoar apenas o entorno da nossa capital.

E uma dessas sesmarias foi exatamente a atual Fazenda Mangaraí, que foi concedida a um amigo de Pontes Leme, também seu conterrâneo de Mariana, o capitão-mor chamado José Cláudio de Souza, que é considerado o fundador da cidade de Santa Leopoldina.

Essa sesmaria era muito maior do que os limites atuais da Fazenda Mangaraí, e media cerca de três léguas quadradas, iniciando-se no ponto inicial de navegação do Rio Santa Maria da Vitória, ainda próximo a Vitória, estendendo-se até onde esse rio deixa de ser navegável, no local onde hoje é a sede da cidade de Santa Leopoldina.

Além da amizade, outros fatores envolveram a decisão de Pontes Leme em “presentear” o capitão-mor José Cláudio de Souza com essa grande área de terras. Um era o fato de que José Cláudio era acostumado a viajar os sertões brasileiros, principalmente os paulistas, tendo muita experiência dirigindo expedições. Outro era de cunho particular: José Cláudio havia se tornado viúvo com o inesperado falecimento de sua esposa, e precisava de um novo ânimo para suportar essa perda e se fixar em um lugar mais calmo, onde poderia cuidar melhor da sua única filha, ainda menor de idade, que havia ficado órfã da mãe.

Essa tragédia pessoal, e a confiança dada pelo amigo Pontes Leme de que a sua esposa cuidaria da filha menor de José Cláudio, fizeram com que ele aceitasse prontamente deixar Minas Gerais e empreender essa viagem para o Espírito Santo. Fora o fato de ser presenteado com uma vastíssima área de terras, que o tornaria o maior latifundiário da região.

Apesar de ter vindo acompanhado de alguns valentes homens que conseguiu recrutar, a viagem foi penosa, pois tiveram que se defender da ferocidade de alguns índios, além de todos os perigos que uma viagem ao longo do Rio Doce poderia gerar. Felizmente conseguiu chegar à capital da Província do Espírito Santo, Vitória, sem perder sequer um homem ou qualquer parte das economias que trazia consigo.

Chegando em Vitória, José Claudio foi recebido pelo amigo Pontes Leme, que formalizou e lhe entregou o título de posse da sesmaria prometida.

Ainda como prometido, Pontes Leme deixou os cuidados da filha menor de José Cláudio por conta da senhora Pontes, que inclusive foi a responsável pela educação da menina.

Já de posse do título da sesmaria, José Claudio se dirigiu ao lugar, subindo o rio Santa Maria da Vitória e adentrando o rio que chamaria de Mangaraí, até chegar a uma cachoeira que os impediu de prosseguir, hoje chamada Cachoeira do Retiro.

O seu intuito inicial era criar um aldeamento naquele local, e para isso recebeu outra benesse do amigo Presidente: Pontes Leme lhe concedeu uma portaria isentando do serviço militar os índios e os mamelucos que fossem aldeados por José Cláudio. E assim nasceu o primeiro núcleo habitacional pós jesuítico em nossa região, o Aldeamento Nossa Senhora do Patrocínio, que chegou a atingir um número de duzentos habitantes. 

Inicialmente, as primeiras tentativas de formação de plantações, como milho, feijão e mandioca, foram dificultadas pelas constantes invasões de índios ainda selvagens, que destruíam essas roças. Não havia maldade nesses índios, apesar de selvagens. O fato é que estragavam as roças por total desconhecimento, pois para eles era como se estivessem colhendo alimentos na natureza.

Essa constante “visita” de índios selvagens gerou medo e muitos dos que José Cláudio havia conseguido reunir no seu aldeamento foram embora, reduzindo a população para cerca de cinquenta pessoas.

Mas a experiência de José Claudio, acostumado às agruras do sertão e do perigo dos índios selvagens não o fez desanimar.

Para repor o contingente de habitantes do Aldeamento Nossa Senhora do Patrocínio, ele fez uma viagem em direção ao local onde hoje está a localidade de Santa Cruz, na foz do Rio Piraqueaçu, no município de Aracruz. Nessa época o local era conhecido como Aldeia Velha, e já existia desde que foi fundada pelo padre Brás Lourenço, em 1556. O nome vem do fato de que, quando da criação de Nova Almeida, passou-se a se referir ao local como Aldeia Velha.

De posse da Portaria que isentava os índios e mamelucos do serviço militar, José Cláudio conseguiu reunir um novo contingente para trazer de volta e se fixarem em definitivo no Aldeamento Nossa Senhora do Patrocínio, em número suficiente para retomar o desenvolvimento do lugar.

Graças ao sucesso dessa viagem, mandou construir uma pequena capela dedicada à Nossa Senhora do Patrocínio, que infelizmente minhas pesquisas nunca confirmaram o local de construção. 

E com o passar do tempo, aqueles índios selvagens que estragavam as roças começaram a se acostumar com o contato dos novos moradores, absorvendo gradativamente os costumes e até as crenças religiosas que José Cláudio trouxe de Minas Gerais.

Outro fator que fez com que José Cláudio conseguisse o total controle sobre os índios e nativos, é que ele era conhecedor das línguas faladas pelos selvagens em geral, conhecimento adquirido no tempo das suas expedições nos sertões de Minas Gerais e São Paulo. E as margens do Rio Santa Maria, região mais fértil, e onde os selvagens mais estragavam as roças, passou a ser cultivada com mais sucesso.

Com o crescimento da fazenda, José Cláudio sentiu necessidade de atrair um outro investidor, que tivesse conhecimentos para administrar aquele empreendimento junto com ele.

E encontrou essa parceria no português Domingos José de Freitas, o Domingos Tintureiro, que havia chegado recentemente ao Espírito Santo, a convite do Governador Manuel Vieira da Silva Tovar e Albuquerque, e atraído por notícias de ouro na região que hoje chamamos Califórnia.

Domingos Tintureiro, que tinha esse nome em função de dominar a arte de tingir tecidos, já sabia que José Cláudio estava na Província do Espírito Santo, e isso o encorajou ainda mais a vir se arriscar por essas bandas. 

É que os dois já se conheciam desde a época em que Domingos se aventurou por Minas Gerais, como caixeiro de cobranças e depois explorando sem sucesso algumas escavações de jazidas de ouro em Mariana, onde havia conhecido José Cláudio.

Arruinado financeiramente em função de maus investimentos feitos em salinas, e do pouco sucesso obtido com as minas de ouro de Califórnia, Domingos procurou José Claudio no Aldeamento Nossa Senhora do Patrocínio, pois procurava uma atividade menos sofrível  para seu sustento, e tinha a intenção de se estabelecer às margens do Rio Santa Maria da Vitória, pois até então nunca fixara residência desde que chegara de Portugal. 

Nessa parceria que se iniciava, Domingos confiou a José Cláudio todas as economias que ainda possuía, empregando-as integralmente no desenvolvimento do aldeamento e da fazenda.

Isso o tornou homem de confiança de José Cláudio, a ponto de desposar a sua filha, que a essa altura já tinha recebido a educação por parte da senhora Pontes e já se encontrava em idade para se casar.

A prosperidade do aldeamento Nossa Senhora do Patrocínio e consequentemente da Fazenda de José Cláudio era tanta, que Domingos, já satisfeito com o que conseguira até então, deixou a parceria junto ao sogro, e requereu ao rei Dom João VI uma sesmaria própria, a que deu o nome de Nossa Senhora da Ajuda.

Embora não tenha encontrado comprovação documental, essa sesmaria é hoje a região de Guarapari, onde com a parceria de outros dois compatriotas, Manoel Ferreira Bastos e Joaquim Ferreira da Silva, Domingos Tintureiro contratou Henrique Bourguignon para construir uma serraria movida a água, a primeira a ser instalada no Espírito Santo. 

E, após essa narrativa dos primórdios da Fazenda Mangaraí, vamos dar um salto no tempo e chegar a 03 de agosto de 1859, data em que nasceu Afonso Cláudio de Freitas Rosa, o nosso brilhante advogado abolicionista, Juiz de Direito e primeiro governador Republicano do Estado do Espírito Santo.

Esse grande e ilustre leopoldiennse, que era bisneto de José Claudio de Souza e neto de Domingos Tintureiro, nasceu no casarão sede da Fazenda Mangaraí, que se encontra ainda preservado até os dias de hoje, testemunhando toda essa rica história de homens corajosos e desbravadores da região onde hoje está localizada a nossa querida Santa Leopoldina.

E a relação de parentesco de Afonso Cláudio de Freitas Rosa com esses dois ícones da formação do território leopoldinense, José Cláudio de Souza e Domingos José de Freitas, é fácil de ser explicada: Domingos Tintureiro casou-se com a filha de José Cláudio de Souza. E desse casamento nasceu o pai de Afonso Cláudio, José Cláudio de Freitas Rosa. Portanto, Afonso Cláudio é bisneto de José Cláudio de Souza, neto de Domingos José de Freitas e filho de José Cláudio de Freitas Rosa. A sua mãe era Rosa Cláudio de Freitas Rosa.

Agora que o leitor de O Leopoldinense ficou conhecendo a história da fazenda Mangaraí, cabe uma pergunta: essa fazenda tem ou não tem história suficiente para se tornar um polo de atração turística e cultural?



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