A execução dos projetos Estação e Identidades rendeu uma injeção de R$ 3,9 milhões na economia da cultura, gerando um impacto de mais de R$ 29 milhões em retorno para a economia brasileira.
Percorrer a memória ferroviária, especialmente no traçado que liga Vitória à Minas, é o fio condutor que conecta os projetos de Preto Filho (44) e Diego Ribeiro (43), brasileiros e idealizadores dos projetos ‘Estação’ e ‘Identidades’, a partir do desejo de intercruzar as lembranças férreas de cerca de 8 milhões de brasileiros que percorreram os 905 km entre Cariacica (ES) e Belo Horizonte (MG), em uma proposta pioneira de resgate das memórias ferroviárias de capixabas e mineiros por meio de iniciativas que destacam os “heroísmos da vida comum”.
“Antigamente, o trem carregava galinha, porco, fumo de rolo, mudança. Vinha até cabrito!” A lembrança da capixaba Dona Antônia abre caminho para um percurso em que os trilhos da EFVM, a Estrada de Ferro Vitória a Minas, conectam a história da líder comunitária às de milhões de passageiros ao longo da última década, reunindo narrativas como as de Seu Agostinho (ex-ferroviário), Pedro Henrique (estudante), Neia Vieira (marisqueira) e de outros agentes culturais, entre eles Dona Nair, de Nova Era, o Sr. Buré, de Rio Piracicaba, e os itabiranos Dona Tita, Antônio e Maurílio.
O que esses passageiros têm em comum, ao longo dos mesmos trilhos que atravessam as histórias evocadas anteriormente, são as memórias que os conectam à estrada de ferro. É por meio da literatura, da fotografia e de documentários (curtas) que mais de 300 brasileiros tiveram suas recordações eternizadas, dos mais jovens aos mais experientes. Nesse percurso, o Estação, de Preto Filho, conduziu mais de 80 jovens em uma imersão na cultura mineira, ainda no primeiro ano do projeto, enquanto o Identidades, de Diego Ribeiro, reuniu cerca de 175 interlocutores capixabas, em sua maioria sêniores (50+, 70+), para redescobrir marcos de seus próprios municípios, somente no ano passado.
“O principal diferencial do ‘Estação’ reside na capacidade de integrar memória, cultura e arte em uma abordagem estruturada de legitimidade e percepção do território, ainda pouco explorada no campo do ESG. Ao invés de tratar a memória apenas como registro do passado, o projeto a mobiliza como instrumento formativo, artístico, criativo e econômico, capaz de gerar valor social. Essa articulação permite que as ações culturais sejam planejadas e executadas com o mesmo rigor aplicado a iniciativas estratégicas e empresariais sustentáveis de alto nível, conectando de forma consistente preservação do patrimônio, valorização das identidades locais, formação e a ampliação do acesso à arte e à cultura”, explica.
Revisitar as memórias ferroviárias, desde o ‘primeiro apito da locomotiva’ no cruzamento com a paisagem, é a proposta dos dois projetos. Identificar, catalogar e celebrar a riqueza cultural, que germinou à beira dos trilhos de 42 municípios, motivou o encontro através da ‘estrada de ferro’. Esse intercâmbio de saberes e da cultura atravessou o Espírito Santo, indo para o Vale do Rio Doce, o Vale do Aço e a Região Metropolitana de Belo Horizonte como destino final, e vice-versa.
Cruzando um roteiro que desembarca na sua última estação em 2028, a collab entre os dois projetos se encontra, pela primeira vez, em 2026. E por onde passa, acolhe histórias e cria um fenômeno inédito: movimenta a economia circular dos municípios e celebra a riqueza local. A prática do turismo ferroviário, na visão de Diego Ribeiro, vem ganhando cada vez mais espaço nesses territórios através da cultura.
“O projeto ‘Identidades’ se destaca por não ser apenas um registro histórico, mas uma iniciativa de impacto sistêmico que utiliza a cultura como motor de desenvolvimento e preservação da memória e do patrimônio, principalmente daquelas manifestações mais corriqueiras, costumeiramente invisibilizadas ou tidas como ‘menos importantes’. Esse trabalho é desenvolvido em dois eixos: a cultura como vetor de dinamização econômica, e a ‘metodologia participativa e sistematização do conhecimento’. A conexão entre memória e arte é feita de forma técnica e profunda, transformando vivências em patrimônio documentado”, comenta.
O resultado de ambos os projetos têm marcado as rotas como destino turístico não apenas de lazer, mas como território-laboratório vivo de experiências culturais. A apresentação dos dois projetos rendeu uma injeção de R$ 3,9 milhões na economia da cultura durante o ano de 2025, gerando um impacto de mais de R$ 29 milhões em retorno para a economia brasileira.
O pioneirismo da iniciativa, segundo Preto Filho (Horus Planejamento e Gestão), é uma conquista rara que chegou aos poucos, desde a idealização do projeto ‘Retrato’ – aprovado pelo Ministério da Cultura (MinC) em 2021, patrocinado pela Vale (2022); e ampliação da metodologia para o ‘Estação’ em 2025.
“Entendo que ser o primeiro projeto aprovado pela Vale, no Brasil, pela legislação da ANTT imprime, sobretudo, pioneirismo e legitimidade. Esses dois posicionamentos são derivados da veloz habilidade de interlocução entre conhecimento sobre projetos culturais de impacto, legislação cultural e construção de um plano de ação que solucione problemas para além do óbvio; da capacidade de inovação (no sentido de aplicação de uma solução cultural em outro segmento, no caso: logística e infraestrutura); do baixo risco da iniciativa (já que a metodologia já estava testada, comprovada e reconhecida para um outro contexto específico); e do valor agregado do negócio (já que resolve problemas para além da legislação - o projeto se concentra na intersecção entre cultura, território e estratégia corporativa - é um dispositivo de engajamento social que promove legitimidade e percepção do território através de relacionamento e presença real junto das comunidades por onde a Vale transaciona e interfere/impacta)”, comenta Preto Filho.
Através de oficinas de fotografia para jovens de 16 a 25 anos e produções audiovisuais, o projeto Estação busca resgatar e dar visibilidade para a memória ferroviária, transformando-se em uma vitrine estratégica e empresarial, ao passo que ressignifica os espaços, atores e viabiliza a ‘educação patrimonial’. “Há uma sensibilização dos participantes e das cidades quando as instalações artísticas são produzidas, as paisagens são transformadas e uma grande exposição reúne os conteúdos produzidos pelo projeto”, explica.
Por outro lado, Diego Ribeiro, do ‘Identidades’ (Culturama Gestão e Eventos), que faz o traçado no sentido Vitória–Minas, propõe a preservação e valorização da memória ferroviária por meio de um mapeamento de saberes, patrimônios e expressões culturais, que se materializa em um festival e um livro-inventário cultural afetivo.
“É neste último produto que, para mim, reside o grande diferencial. Isso porque construímos esse livro com uma metodologia inovadora: tudo é feito em tempo real. Há uma conexão e produção em sintonia onde se entrelaçam pesquisadores, redatores, fotógrafos, designers, revisores e produtores; esse produto é diferente de um inventário clássico – aqui a perspectiva não é quantitativa, é qualitativa, representativa e saborosa. Quando vamos entregar o livro impresso para cada pessoa entrevistada, escutada, fotografada e inserida na publicação temos a oportunidade de devolver para ela a dimensão de sua importância para a sua comunidade e seu território”, narra.
A junção dos dois projetos, segundo Preto, visa dar vida e voz a uma infinidade de memórias, retratadas no espaço de tempo de quatro anos. Além de valorizar, registrar e difundir o patrimônio cultural e a memória ferroviária dos municípios, ambos os projetos atuam no acesso democrático à cultura e no fomento a economia criativa local, por meio da contratação de serviços junto da região contemplada, valorização de jovens, profissionais, agentes culturais dos territórios e geração de oportunidades vinculadas à produção e gestão cultural.
Até o ano de 2028, o objetivo de ambos os gestores culturais é alcançar milhares de capixabas e mineiros. Após trilhar o percurso que compreende as localidades de Belo Horizonte, Barão de Cocais, Rio Piracicaba, João Monlevade, Itabira, Nova Era e Antônio Dias, com o ano I do ‘Estação’, o ‘Identidades’ chega agora ao encontro das lembranças ferroviárias após passar por Cariacica, Vila Velha, Serra, Fundão, Ibiraçu, João Neiva, Colatina e Baixo Guandu em 2025.
“Com as assinaturas 'Um projeto que olha para as pessoas' e 'Onde tem gente, tem memória', as iniciativas transformam investimento cultural em presença qualificada, real e contínua. Enquanto no ‘Estação’ a gente vai construindo pertencimento com os jovens, no Identidades a gente certifica e apresenta o pertencimento para os entrevistados através do livro. São projetos de longa duração, semelhantes na preservação da ‘memória ferroviária’, mas distintos na metodologia. Acredito que o fato de sermos os primeiros projetos aprovados e em execução nos trazem bastantes desafios. O maior deles advém da própria inovação do setor. Apesar do alto grau de atratividade, é preciso construir e sustentar segurança para as partes interessadas, parceiros e apoiadores. Assim, conseguimos impactar ainda mais vidas através dessa memória que nos une”, conclui Preto Filho.
Confira os resultados do Projeto ‘Identidades’ abaixo (2025):
Pesquisa e inventário:
90 visitas realizadas;
175 interlocutores mobilizados;
8 municípios alcançados;
100 manifestações culturais registradas;
Mais de 5 mil fotografias produzidas;
Festival ‘Identidades’:
17 expositores locais;
600 pessoas (público estimado)
Mais de 100 participantes na roda de conversa;
21 apresentações culturais
100% da programação com intérpretes de Libras;
Confira os resultados do Projeto ‘Estação’ abaixo (2025):
Pesquisa, formação e produção artística:
384 inscrições recebidas;
80 jovens selecionados;
192 horas de atividades formativas realizadas;
07 cidades envolvidas ao longo da EFVM;
Mais de 5 mil fotos produzidas por jovens participantes;
240 fotografias selecionadas pela curadoria;
8 produções audiovisuais desenvolvidas;
250 m² de intervenções artísticas realizadas em espaços públicos;
Exposições e difusão cultural:
1 levantamento cultural regional
7 instalações artísticas em espaços urbanos e educacionais;
72 obras fotográficas expostas em Belo Horizonte;
8 obras audiovisuais exibidas em circuito cultural;
1 exposição integrada ao Circuito da Praça da Liberdade;
1 galeria virtual lançada, ampliando o acesso nacional às obras;
Impacto social e territorial:
7 municípios diretamente atendidos no primeiro ciclo;
172 km de percurso trabalhado inicialmente;
Participação majoritária de mulheres (69%) e pessoas negras (67%);
Formação gratuita em fotografia e audiovisual para jovens de 16 a 25 anos;
Valorização de memórias ferroviárias e personagens locais;
O projeto ‘Estação’, realizado pela ‘Horus Planejamento e Gestão’; e o ‘Identidades’, realizado pela ‘Culturama Gestão e Eventos'; ambos possuem articulação e parceria da Vale, viabilizados por meio do Recurso para Preservação da Memória Ferroviária por iniciativa da Agência Nacional de Transportes Terrestres - ANTT.

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