A histórica Ponte do Funil

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POR ADRIANO LIMA NEVES 



Quando se fala em Ponte do Funil, seja em um contexto histórico ou turístico, a primeira lembrança que vem à mente da maioria dos brasileiros é a famosa Ponte João das Botas, popularmente conhecida como Ponte do Funil, na Bahia, inaugurada em 1970, que liga a região do Recôncavo Baiano à turística Ilha de Itaparica. O apelido vem do fato dessa ponte atravessar um funil que se forma entre a ilha e o continente, onde se liga à rodovia BR 101, uma estrada também inaugurada naquela época.


Seu nome oficial João das Botas é uma homenagem ao tenente João Francisco de Oliveira, um militar nascido em Itaparica, que combateu as embarcações portuguesas na Baía de Todos os Santos, em frente a cidade de Salvador, no século XIX.


Outra famosa ponte a que esse nome pode nos remeter está localizada na cidade de Lavras, no sul de Minas Gerais, e foi construída por ingleses em 1907. Tem 125 metros de extensão e é composta por uma estrutura metálica sustentada por cinco grandes pilares de pedra, construídos com argamassa à base de óleo de baleia.   O nome Funil se deve ao fato de ter sido construída em um ponto estreito do Rio Grande, onde havia uma cachoeira que afunilava o rio, e teve grande importância para a travessia dos tropeiros que atuavam em Lavras e outras regiões do sul de Minas Gerais. 


Apesar de sua história, desde o ano de 2002 essa ponte encontra-se submersa, em função da construção de uma represa no Rio Grande, para a criação do lago da Usina Hidrelétrica do Funil, administrada pelo consórcio Vale/Cemig. 


Apesar de submersa, sendo visitada apenas por mergulhadores esportivos, a relação histórica e emocional da Ponte do Funil de Lavras com a população daquela região foi preservada, tendo sido inaugurada ali uma fábrica de cervejas chamada Cervejaria do Funil, que produz uma cerveja em homenagem a essa bela ponte.


Há outras pontes Brasil a fora com o nome de Funil, como em Piedade e Limeira, no estado de São Paulo e também em Ouro Fino, em Minas Gerais. Mas a ponte que merece maior destaque, e é o motivo principal da minha coluna de hoje, é a nossa pitoresca Ponte do Funil, localizada na comunidade que leva o mesmo nome, em Santa Leopoldina, cuja importância histórica para o desenvolvimento do nosso estado é maior do que a das pontes baiana, mineira e dos outros lugares são para os seus respectivos estados.


Talvez o leitor de O Leopoldinense torça o nariz e até enxergue um certo exagero de minha parte nessa afirmação, tomando como base um posicionamento bairrista que “esse que vos escreve” possa ter quando o assunto é a rica história de Santa Leopoldina. Mas posso garantir que não há qualquer vírgula ou linha na história da nossa Ponte do Funil que não a eleve a essa posição de pioneirismo e de importância histórica e cultural para a nossa cidade e para o nosso estado. 


Por isso faço questão de sempre incluir nas minhas narrativas as informações mais pormenorizadas possíveis, às quais  poucos leopoldinenses tem acesso, não por que não se interessam pela história do nosso município, mas pelo desleixo com que a história de nossa região sempre foi tratada, e pela  ausência quase completa de registros oficiais. 


Começo a história da nossa Ponte do Funil com uma informação que pode parecer estranha para o leitor, mas o meu desejo a partir de agora é que não cause mais estranheza alguma afirmar que a nossa famosa Ponte do Funil é mais antiga do que a maioria de nós achava, e remonta ao tempo em que Santa Leopoldina ainda nem existia. Calma, pois devemos lembrar sempre que quando se fala em “tempos que Santa Leopoldina ainda nem existia”, fala-se da época anterior à demarcação da colônia de imigrantes, não podendo esquecer que o Porto do Cachoeiro já existia, pois era usado há algum tempo pelos ribeirinhos e como ponto de embarque e desembarque de alguns moradores nativos ou outros que já haviam se instalado na região. 


Sim, isso mesmo. Quando da demarcação da área da colônia de Santa Leopoldina, em 1856, cuja medição foi feita pelo tenente João José Sepúlveda de Vasconcelos, e da implantação efetiva da colônia, ocorrida em março de 1857, a Ponte do Funil já estava lá, dentro das quatro léguas quadradas reservadas aos imigrantes no entorno do Rio Santa Maria da Vitória, entre a Cachoeira Grande e a de José Cláudio, como era conhecida a corredeira que passa sob a atual  ponte Paulo Antônio Médice.


E foi pela Ponte do Funil que os primeiros imigrantes atravessaram o rio Santa Maria da Vitória para conseguir chegar à sede da colônia, que foi demarcada inicialmente onde hoje está a localidade de Suíça. 


A existência da ponte deve ter causado surpresa aos primeiros 140 colonos suíços removidos para cá de Ubatuba, São Paulo, que a atravessaram em março de 1857, e também aos 222 colonos alemães que chegaram no meio daquele mesmo ano, em direção aos seus lotes de 62.500 braças quadradas que o Governo Imperial destinou a cada família. Eles ão deviam imaginar que em uma região praticamente desabitada, encontrariam uma obra como aquela, sem contar a surpresa ao visualizar o belo acidente geográfico que há no local: as corredeiras do Rio Santa Maria da Vitória simplesmente desaparecem totalmente sob pedras, voltando suas águas a serem novamente vistas a mais de duzentos metros rio abaixo. 


Nunca pesquisei a fundo a origem dessa concentração de pedras sobre o leito do rio Santa Maria da Vitória, que é a origem do nome do lugar e da ponte, mas há evidências no local que facilmente nos levam a deduzir que houve uma avalanche, tendo se desprendido várias pedras de uma montanha que há na margem direita do rio.



A construção  dessa pitoresca ponte teve início em 1853 e a escolha daquele exato local se deu em função de ser o mais estreito para a travessia do Rio Santa Maria da Vitória, pois o local fica entre duas montanhas de rocha, por onde já atravessavam pessoas a pé e até tropas de burros.


A obra, considerada de grande vulto e de grande dificuldade técnica para a época, foi executada pelo senhor Francisco de Amorim Machado, um habilidoso empreiteiro, sob as ordens do Presidente do Estado, o Dr. Sebastião Machado Nunes, que autorizou a obra através da Lei nº 4, de 19 de julho de 1853.


Após dois anos de intenso e penoso trabalho, a nossa  Ponte do Funil ficou pronta em 1855, a um custo total de 400$000, sendo motivo de orgulho para o Presidente do Estado, pois iniciava-se ali a abertura de uma nova possibilidade de se atingir o interior ainda pouco habitado do nosso estado, em direção a Minas Gerais.


Porém, o engenheiro do Império que veio fiscalizar a obra não gostou do que viu e quase a condenou. O motivo alegado era que os taludes haviam sido amparados sobre pedras inclinadas, o que, na visão do engenheiro, poderia deixá-la frágil. Mas, ao ouvir do construtor, o experiente Francisco de Amorim Machado,  que a ponte já havia resistido a uma grande enchente que ocorreu em fevereiro daquele mesmo ano, o engenheiro do Império resolveu liberar a obra e não aplicar penalidades ao seu executor, voltando para a Corte, no Rio de Janeiro, sem ter a certeza de que realmente a ponte havia resistido a uma grande enchente ou se aquilo foi uma esperteza do construtor para convencê-lo. O mais interessante é que nunca encontrei registros de uma grande enchente no rio Santa Maria da Vitória no ano de 1853 e essa habilidade do senhor Francisco de Amorim Machado o fez receber integralmente o valor da empreitada, o que possibilitou que se transformasse em um próspero proprietário de terras em nossa cidade.


E, mesmo tendo sido construída sobre pedras inclinadas e quase condenada pelo engenheiro que veio fiscalizar a obra a mando do Império, a ponte original serviu de travessia segura durante 160 anos, desde os tempos dos primeiros imigrantes, das tropas de burros, dos grandes caminhões que trouxeram os equipamentos das usinas Rio Bonito e Suíça, e do intenso movimento de caminhões que trazem a produção agrícola da região de Santa Maria de Jetibá para a Ceasa, sendo reformada somente no ano de 2013. E está lá, firme e forte, até hoje.


Imaginem se não tivesse sido bem feita...

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